Fitofisionomias

    Quem já andou no Cerrado ou o viu de algum lugar alto pôde perceber que ele tem várias “caras”. A estas diferentes paisagens dá-se o nome Fitofisionomias, e a forma como elas são distribuídas, muitas vezes com limites claros, faz com que o Cerrado se assemelhe a um Mosaico de Paisagens.


    Para entender melhor o conceito de fitofisionomia é importante conhecer os fatores que podem ser usados em sua definição:
      - Flora é o nome dado ao conjunto de espécies vegetais encontrado em determinado lugar em algum período do tempo. Por exemplo, a flora ameaçada do brasil consiste em uma lista de espécies sob algum nível de ameaça ameaça.

  - Estrutura abrange fatores como altura e área coberta pela copa dos indivíduos da comunidade, bem como a forma que se distribuem uns em relação aos outros, agregando informações como densidade de árvores ou porcentagem de cobertura por ervas.


    -Fisionomia é a forma aparente de um indivíduo ou comunidade. Leva em consideração a estrutura, mudanças estacionais (como a perda de folhas), largura e consistência das folhas e formas de vida (se são arbustos, ervas, cipós, musgos, etc.);


    - Ambiente físico é o conjunto de atributos abióticos de algum lugar, como a composição e profundidade do solo que serve de substrato para as plantas, temperatura do ambiente e disponibilidade de água. Ele é o principal responsável por moldar a fisionomia uma vegetação.


     - Vegetação é um termo usado para se referir a conjuntos de plantas de uma forma geral, sem necessariamente se preocupar com a identidade das espécies. São utilizados os termos tipo de vegetação relativo a características da flora, fisionomia, e ambiente físico relacionados a uma vegetação; e forma de vegetação, relacionado apenas à fisionomia.


    As fitofisionomias são tentativas de nomear e classificar os tipos vegetação principalmente com base nos critérios fisionômicos, substrato de crescimento e composição da flora. No decorrer da história, foram criados vários nomes para fitofisionomias do Cerrado, sendo que em um trabalho de revisão dos nomes usados para as fitofisionomias feito por Walter (2006) foram encontrados mais de 700 nomes. A existência de tantos termos que se sobrepõem e geram ambiguidade dificulta os estudos sobre o Cerrado e prejudica esforços para a sua conservação. Neste contexto, José Felipe Ribeiro e Bruno Walter (1998, 2008), pesquisadores da Embrapa, lançaram obras fundamentais para a padronização dos nomes empregados para fitofisionomias do Cerrado.

    Nas obras de Ribeiro & Walter (1998, 2008) é proposta a definição de onze principais fitofisionomias para o Cerrado, primariamente com base na fisionomia e secundariamente com base em fatores edáficos (relativos ao solo) e florísticos. As fitofisionomias podem ser divididas com base na forma de vegetação, sendo elas formações campestres, onde há o predomínio de gramíneas e ervas como forma de vida dominante; formações savânicas, nas quais, árvores e arbustos se distribuem sobre o estrato graminoso, cobrindo entre 5% e 70% da superfície vegetal; e formações florestais, onde o componente arbóreo é dominante, configurando a formação de um dossel contínuo, ou seja, onde as copas das árvores se tocam. Com base na obra destes autores, estas são as principais fitofisionomias do cerrado e suas características:

 

Formações campestres: 


    Campo Sujo - tipo fitofisionômico caracterizado pela disposição de arbustos e subarbustos sobre uma matriz de gramíneas e ervas. São determinados principalmente por solos rasos ou pobres que impedem o desenvolvimento das plantas em árvores típicas. Podem ser categorizados três subtipos: Seco, Úmido ou com Murundus, dependendo do grau de saturação de água no solo e presença dos montículos de terra chamados murundus.

Campo Sujo. Foto:  Matheus Mourão Carvalho

    Campo Sujo em que se podem observar a presença de algumas plantas características como os chuveirinhos (família Eriocaulaceae) e canelas de ema (Velloziaceae). Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, Alto Paraíso - GO.


    Campo Limpo - fitofisionomia predominantemente herbácea, com completa ausência de árvores e rara contribuição de arbustos. É comumente encontrado nas regiões marginais de veredas e matas e nas encostas das chapadas, regiões nas quais costuma haver afloração de lençóis freáticos. Também pode ser dividido nas mesmas três subcategorias dos campos sujos.


    Campo Rupestre - é uma fitofisionomia predominantemente herbáceo-arbustiva que está relacionada a afloramentos rochosos, áreas que possuem pouco solo disponível para o crescimento das plantas, ocasionando plantas que não passam muito dos 2 m de altura. São encontrados em altitudes superiores a 900 m e apresentam flora característica, com muitas espécies que só acontecem neste tipo de vegetação e que são restritas a pequenas áreas.

Paisagem na qual pode se ver a fitofisionomia Campo Limpo com uma Mata de Galeria logo ao fundo. No canto superior direito, pode-se observar Cerrado sentido restrito sobre terreno mais declivoso. Fazenda Volta da Serra, Alto Paraíso - GO. Foto:  Matheus Mourão Carvalho

Formações savânicas:


    Cerrado sentido restrito (sensu stricto) - é a fitofisionomia mais comum no Cerrado, sendo responsável por mais de 70% da cobertura original (Coutinho, 2016). É caracterizado pela presença de árvores baixas (até 8 metros) e tortuosas, com muitas ramificações. A densidade da cobertura arbórea varia em virtude da frequência de queima e condições do solo. Baseado nisso, pode ser subdividido de acordo com suas respectivas porcentagens de cobertura, sendo denominado Cerrado Ralo aquele com 5-20% de cobertura; Cerrado Típico com 20-50%; e Cerrado Denso com 50-70%; ou quanto ao substrato de crescimento que, sendo rochoso, determina o nome de Cerrado Rupestre, com 5-20% de cobertura arbórea.

Paisagem com a predominância da fitofisionomia Cerrado sentido restrito. Pode se observar campos limpos ao fundo. São Sebastião - DF. 

Foto:  Matheus Mourão Carvalho

O Cerrado Rupestre ocorre sobre afloramentos rochosos. Parque Estadual Serra dos Pirineus, Cocalzinho - GO. 

Foto:  Matheus Mourão Carvalho

    Parque de Cerrado - é uma fitofisionomia caracterizada pela distribuição agrupada das árvores que crescem sobre elevações no solo conhecidas como murundus, onde o solo é mais profundo e bem drenado. Sobre eles, a cobertura de árvores varia entre 50% e 70%, enquanto fora é praticamente 0%, já que as condições do solo não são favoráveis à vida de espécies arbóreas.


    Palmeiral - fitofisionomia caracterizada pela dominância de uma única espécie de palmeira, sendo chamadas por nomes diferentes dependendo de qual é a espécie dominante. No cerrado é comum encontrar em solos bem drenados os Babaçuais, formados por palmeiras Babaçu (Attlaea speciosa), Macaubais, das palmeiras Macaúba (Acrocomia aculeata), e Guerobais, das Guerobas ou Guarirobas (Syagrus oleracea). Já nos fundos de vale e áreas brejosas, ocorre o Palmeiral dominado pelo Buriti (Mauritia flexuosa) chamado Buritizal, que se diferencia das veredas devido à predominância do elemento arbóreo representado pelos buritis. 

    Vereda - tipo de vegetação que ocorre em fundos de vale com baixa declividade ou em áreas mais planas, sempre associado a calhas de drenagem mal definidas e afloramentos de lençóis freáticos. As veredas são marcadas pela presença de palmeiras buriti (Mauritia flexuosa) que ocorrem, diferente dos buritizais, de forma mais espaçada, sem a formação de um dossel contínuo, cobrindo entre 5% e 10% da área dessa fitofisionomia. Este tipo de vegetação é composto por três zonas, com tipos de vegetação e características de solo diferentes: a “borda”, onde os solos são mais secos, ocorrem campos sujos podendo haver a presença de árvores isoladas; o “meio”, que é caracterizado por campos limpos úmidos, em solos que variam de encharcados a medianamente úmidos dependendo da estação do ano; e o “fundo” onde o solo é permanentemente brejoso e onde se localizam os buritis entremeados por arbustos e árvores baixas.

Vereda, na qual pode-se observar a zona campestre que a rodeia e o fundo, onde nascem os buritis. Fazenda Volta da Serra, Alto Paraíso - GO. 

Foto:  Matheus Mourão Carvalho

Formações florestais:

    Mata de Galeria - é uma fitofisionomia que está relacionada a cursos d'água de pequeno porte, aos quais fornecem cobertura formando as galerias que dão seu nome. É composta por árvores sempre verdes que chegam até os 30 m de altura e formam um dossel contínuo com cobertura de 70% a 90% da área vegetada. Elas podem ainda ser subdivididas em: Não-Inundáveis, onde a oscilação do lençol ou curso d’água não atinge ou cobre a superfície do solo durante o ano; e Inundáveis, onde o lençol freático é superficial, o que permite o crescimento e algumas espécies em detrimento de outras, sendo a presença de palmeiras buriti um indicativo desse subtipo fitofisionômico.

Mata de Galeria Inundável rodeada por vegetação campestre. Parque Nacional Grande Sertão Veredas, Chapada Gaúcha - MG. 

Foto:  Matheus Mourão Carvalho

    Mata Ciliar -  tipo de vegetação predominantemente arbórea encontrada nas margens de rios de médio e grande porte do Cerrado. Diferenciam-se das Matas de Galeria por não cobrirem completamente o curso d’água ao qual estão relacionadas e por apresentarem diferenças florísticas que podem ser ressaltadas pela presença de espécies que perdem folhas em partes do ano (caducifólias). Suas árvores variam entre 20 e 25 metros de altura e, devido à perda das folhas por parte dos indivíduos, a cobertura de dossel varia entre 50% na estação seca e 90% na estação chuvosa.


    Mata Seca - tipo de vegetação que é intimamente relacionado a fatores físico-químicos do solo. Esta fitofisionomia ocorre em solos bem drenados não relacionados a cursos de água (interflúvios) e com alta ou média fertilidade relacionada à origem geológica dos solos, sendo comum a presença de afloramentos de rochas calcárias. A altura média das árvores varia entre 15 e 25 metros e a cobertura de dossel varia de acordo com a estação do ano e as características do solo, podendo assim serem subdivididas em três: Sempre-Verde, nas quais a cobertura arbórea não muda significativamente durante o ano; Semidecídua, em que a cobertura arbórea chega a até 50% na seca; e Decídua, com cobertura arbórea inferior a 50% na seca, frequentemente encontrada sobre afloramentos calcários.


    Cerradão - é uma fitofisionomia dominada por árvores que variam entre 8 e 15 metros de altura e com cobertura de dossel que varia entre 50% e 90%, apresentando semideciduidade. Também ocorrem em interflúvios, mas em solos profundos, bem drenados e pobres em bases trocáveis, os chamados Latossolos. Fisionomicamente, o cerradão se assemelha às demais formações florestais, mas floristicamente a maior parte das espécies são compartilhadas com fitofisionomias savânicas e em menor parte com as Matas Secas Semidecíduas e Matas de Galeria Não-Inundáveis. Podem ser subdivididos em dois tipos com base no solo em que crescem e na flora presente: Cerradão Distrófico, que remete aos solos muito pobres em nutrientes; e Cerradão Mesotrófico, que ocorre em solos mais ricos.

Mata Seca dentro da qual se pode observar um Palmeiral formado pela palmeira Babaçu. Foto do fim do período de chuvas, Planaltina - DF. 

Foto:  Matheus Mourão Carvalho

Referências:


Coutinho, L. (2016). Biomas brasileiros. Oficina de Textos.
Ribeiro, J.F.; & Walter, B.M.T. (1998). Fitofisionomias do bioma Cerrado. In: Cerrado: Ambiente e Flora. 1 ed, p. 89-166
Ribeiro, F.B.; & Walter, B.M.T. (2008). As Principais Fitofisionomias do Bioma Cerrado. In: Cerrado: Ecologia e Flora. v1, p. 151-212
Walter, B.M.T. (2006). Fitofisionomias do bioma Cerrado: síntese terminológica e relações florísticas. 373 f. Tese (Doutorado) - Departamento de Ecologia, Universidade de Brasília, Brasília.

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